Sabonete

23 Maio, 2007

Ela chegou mais perto, me cheirou e disse “você está com cheiro de sabonete”. Naquele momento, eu, surpresa, não sabia o que dizer. Como que no automático me cheirei também e senti o odor que tanto temia sentir: ela estava certa, eu cheirava a sabonete.

Percebi, então, que de algum jeito eu precisava me safar, desmentir essa história e tirar essa “idéia absurda” da cabeça dela. “Oxi, mãe, cheiro a perfume e a roupa nova, ta doida é?”, disse. Ela se levantou do sofá e, calada, foi para cozinha.

Sozinha na sala, eu me vi imersa em vergonha, conflitos, dúvidas e receios. É óbvio que ela não tinha acreditado que o cheiro era de perfume e de roupa nova. O que eu faço, meu deus?! Fico quieta e finjo que ela acreditou ou conto logo toda a verdade e acabo com essa mentira?

Fui até o espelho. Tentei ensaiar falas, explicações, desculpas, mentiras para contar para ela, queria encontrar a melhor formar de lhe dizer a verdade e acabar com essa angústia que de repente tomou conta de mim. Não consegui. Estava nervosa o suficiente para ser construir frases que fizessem algum nexo. Que desespero!

O mais impressionante de tudo é que há apenas alguns minutos atrás eu seria capaz de continuar fazendo tudo, inclusive tomando banho antes de ir pra casa, sem a menor culpa, certa de que ela de nada – ou de quase nada – desconfiava. Mas agora, não mais. Ela sabia e eu sabia disso; e que vergonha eu sentia!

Por dias aquela culpa sem sentido me acompanhou. O medo da reação que ela poderia ter me fez sentir constrangida por ter crescido, vivido e me tornado mulher. Como chorei! Estava confusa pela forma como tudo rapidamente e inesperadamente havia acontecido. Pensava muito, tinha esperança de em algum instante encontrar uma forma de solucionar este “problema” e me livrar desta estranha culpa que havia recaído sobre mim.

Foi então que ainda com os olhos vermelhos resolvi assumir para ela a mulher que existia em mim e que já não fazia mais sentido esconder.Não que a vergonha tivesse passado ou o medo tivesse sumido, mas a mentira precisava acabar e só eu poderia fazer isso.

Respirei fundo, fui até a sala, parei em frente dela, me enchi de coragem e disse “Mãe, eu não sou mais virgem”.

Por um momento o mundo parou. Eu não ouvia mais nenhum som, não diferenciava as cores e já não era capaz de ver mais nada além do rosto dela que continuava a me olhar fixo, vago e convictamente, mas, simultaneamente, confuso e cheio de hesitações. Era perceptível que, assim como eu, ela não sabia o que fazer.

Não tínhamos noção do que aconteceria dali em diante, era impossível prever. Estávamos ambas ali, nos olhando estáticas, completamente atordoadas com o repentino acontecimento. Um turbilhão de pensamentos passava pela minha cabeça. Pensava se não teria sido mil vezes melhor ter esquecido esse negócio de “assumir a mulher que existe em mim” e esperar mais um pouco só para ter me preparado mais. Era tão evidente que não estávamos preparadas para estar ali… Nem minha mãe estava pronta para ouvir o que ouviu, nem eu, logicamente, estava pronta para falar o que falei.

Não conseguia entender porquê a vida tinha que ser assim: ele nunca nos avisa com antecedência os acontecimentos pelos quais vamos passar; ela simplesmente os coloca sobre nós e espera para ver no que vai dar. Isso é tão injusto!

 De qualquer jeito, revoltada com a vida ou não e achando-a injusta ou não, o tempo não ia ficar parado ali para sempre. Algo tinha que ser feito, sabíamos disso. O que não sabíamos era o quê exatamente teríamos que fazer para acabar com este momento tenso pelo qual estávamos passando.

Foi aí que ela, discreta como consegue ser, se levantou, me deu um beijo na testa e saiu.

Ela me deixou sozinha na sala de novo, saiu calada como na vez em que me cheirara. Mas agora, diferentemente daquela vez, o silêncio e a solidão da sala não me sufocavam. Foi como se o beijo, o simples beijo, tivesse feito todo o peso do silêncio e da solidão sumir; feito todas as lágrimas secarem e toda vergonha e medo sucumbirem.

Saí da sala também calada…

Ao chegar ao meu quarto e ao deitar na cama pude finalmente parar e pensar com calma naquele furacão que passara por nós, mas que agora parecia tão distante. Eu havia feito escolhas, havia optado por me transformar, por crescer e, de uma forma ou de outra, toda essa confusão valeu a pena. Estava aliviada por finalmente perceber que agora sim eu era uma mulher de verdade e que muito embora cheirasse a sabonete, eu era uma mulher feliz.

(Conto produzido por mim na aula de Oficina de Leitura e Escrita na faculdade)

Brazil energy minister resigns over scandal
By Jonathan Wheatley in São Paulo to the Financial Times

Published: May 22 2007 22:51 | Last updated: May 23 2007 01:31

Silas Rondeau, Brazil’s mines and energy minister, resigned on Tuesday night after being accused by federal police of accepting a bribe in a corruption scheme involving suspect payments of about R$170m ($87m).

The scandal is one of a series of high-profile corruption allegations to have hit the government of President Luiz Inácio Lula da Silva, whose second four-year term began in January.

Police say a year-long investigation named Operation Razor uncovered a scheme in which public money for fraudulent and sometimes non-existent public works was paid to a construction company, Gautama, in exchange for bribes.

Investigators presented evidence from telephone taps and security cameras which they said demonstrated that Gautama’s owner and staff conspired with ministry officials to deliver a R$100,000 bribe to Mr Rondeau at his office in Brasília.

Last week police arrested 48 people including a state deputy, a former governor of Maranhão state and close family members employed by the present governor, along with federal and other state government employees and business people. More arrests are expected to ­follow.

Mr Rondeau denied any wrongdoing and said he had been found guilty before being given the chance to defend himself.

The accusations became public as Mr Rondeau and Mr Lula da Silva were in Paraguay on Monday to sign agreements covering the Itaipu bi-national hydro­electric dam. The two men were scheduled to meet in Brasília on Tuesday, when Mr Rondeau was expected to present his resignation.

Unlike the main scandal of Mr Lula da Silva’s first term, in which ministers and ­senior officials from the president’s leftwing PT party were accused of paying legislators for their support, more recent scandals have involved opposition as well as government figures.

The recent scandals have provoked increasing public disillusionment with local and national politicians in Brazil, where the phrase rouba mas faz – “he steals but he gets things done” – is often used as a sign of approval.

“We can’t be so ingenuous as to imagine that these things didn’t happen in the past,” Marco Aurélio Mello of the Supreme Court told reporters.

“The difference is, now that the intelligence service of the federal police is in action, everything is coming to light.”

The scandals have led to calls for a reform of Brazil’s political system, under which legislators have little accountability to either voters or party and are granted wide-reaching immunity from prosecution.